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DIVERSIDADE E MULTIPLICIDADE DE CULTURAS
O papel do escritor no Novo Mundo – Rogério Andrade Barbosa


“Todos os seres humanos pertencem à mesma espécie e têm a mesma origem. Nascem iguais em dignidade e direitos e todos formam parte integrante da humanidade ”( Artigo 1 da declaração Sobre Raça e Preconceitos Raciais – UNESCO)

O Brasil, meu imenso país, por sua formação étnica, apresenta uma grande diversidade cultural. Vivemos numa sociedade multiracial, formada de índios, brancos e negros.

Gilberto Freyre, nos dá nas páginas iniciais de sua obra um panorama de nossas raízes:

“ Formou-se na América Tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio – e mais tarde de negro – na composição ” ( Casa Grande e Senzala, pg. 4 ).

As raízes mestiças do povo brasileiro são reforçadas por Sérgio Buarque de Holanda:

“Os portugueses...eram já ao tempo do descobrimento do Brasil, um povo de mestiços” ( Raízes do Brasil, pg. 22 ).
Darcy Ribeiro afirma que somos um povo-nação, descendente de velhos povoadores e imigrantes recentes:
“ Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um povo-nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino” ( O Povo Brasileiro, pg. 22 )
Nesse milênio que se inicia e dos 500 anos da descoberta do Brasil, ainda “somos um novo mundo” em busca de “um mundo novo”. Um país complexo e multicultural no qual os problemas sociais, a pobreza, o analfabetismo e a questão da terra continuam a ser um desafio.
Portanto, as diferenças culturais devem ser valorizadas e, não, ignoradas ou alvo de discriminação. Nesse aspecto, os livros destinados aos jovens têm um papel fundamental: o de contribuir para que a criança sinta-se orgulhosa de pertencer a um povo ou minoria étnica, seja ele qual for, ao mesmo tempo que as outras crianças devem aprender a respeitar as individualidades, contribuições e valores de uma cultura diferente da sua.
Muniz Sodré numa entrevista ( Multiculturalismo mil e uma faces da Escola, pg. 19 ) sobre cultura, diversidade cultural e educação, realça a importância do saber popular:

“...Durante muitos anos, a distinção social no Brasil se fazia pela posse do diploma de bacharel, de doutor, contra o analfabeto, o iletrado...Mas é preciso destacar que, apesar de não ter “letras”, largas frações das classes pobres subalternas no Brasil portam uma forte cultura popular. Apesar de lhes faltar renda, elas respondem por uma tradição de cultura popular rica e diversificada ”
Em meus livros, frutos de viagens e pesquisas que faço pelo Brasil afora, sempre que posso, procuro abordar essa multiplicidade, valorizando, principalmente, a sabedoria popular e as diferenças culturais e étnicas.
As festas populares, produtos da fusão desses povos, são fontes inesgotáveis em minhas narrativas. Em VIVA O BOI BUMBÁ, reconto a magia e a simbologia de um dos mais antigos e tradicionais autos populares do Norte-Nordeste do Brasil. O auto do boi é uma dança dramática que, pelas suas características de teatralidade e ludicidade, tem um forte apelo. Recebe diferentes denominações de uma região para outra: bumba-meu-boi, boi-calemba, boi-de-reis, boi-de-mamão e outras. Seus personagens, representando figuras fascinantes do nosso folclore, variam de estado para estado. Mas a essência dessa narrativa – o conflito entre opressores e oprimidos sempre em tom de farsa – permanece inalterada.
Já em O VELHO, A CARRANCA E O RIO mergulho, literalmente, nas águas do São Francisco - o chamado rio da Integração Nacional e o maior dos cursos d’água que nascem e morrem em território brasileiro - povoado, segundo seus moradores, por monstros fantasmagóricos e assustadores. O artesanato em barro e madeira e, também, as cantigas populares são resgatadas através da voz de um velho barqueiro - que defende, com unhas e dentes - , a preservação da cultura local.
A miséria, a fome, o autoritarismo e a seca do nordeste são relatadas em LUTANDO POR DIREITOS. Nessa história um menino luta contra as três forças tradicionais de uma pequena cidade do interior: a polícia, a igreja e os políticos para salvar seu bicho de estimação.
Acredito que um autor, segundo a letra de uma canção, tem de estar aonde o povo está. Ou seja, deve retratar a realidade de seu país, por mais sofrida que ela possa parecer. Por isso, que em meus textos, a dor e a revolta, estão sempre presentes. Na ficção, ao contrário da vida real, soluções mágicas ou providenciais resolvem os conflitos. Mas, para a grande massa da população brasileira, especialmente as das áreas rurais, a luta pela sobrevivência vem assumindo proporções dramáticas. Daí a luta de meus personagens por uma vida mais digna e justa.
Problemas perturbadores, como o rapto de crianças e a prostituição infantil, que, de acordo com a UNICEF, atinge cerca de um milhão de jovens em vários países são os temas centrais de um SOPRO DE ESPERANÇA. Essas questões e outras – misticismo e fanatismo religiosos, tráfico de drogas, pobreza, preconceito e aids – são discutidas, mesclando ficção e informações coletadas na imprensa, em busca do direito inalienável de todos: a vida.
Em SANGUE DE ÍNDIO , lançado às vésperas do Brasil festejar os 500 anos da chegada dos portugueses, questiono o verdadeiro massacre sofrido pelas populações indígenas desde a época do “descobrimento.” Inspirado num fato recente, a morte de um índio pataxó - queimado vivo por jovens adolescentes de classe média de nossa capital, Brasília – discuto a violência que impera nas grandes cidades.
E, finalmente, baseado em minha experiência como professor-voluntário a serviço das Nações Unidas, na Guiné-Bissau, venho me dedicando a escrever histórias que tenham como cenário o fabuloso universo da literatura tradicional africana. Os contos populares trazidos pelos escravos – que nos legaram um mundo de contos, lendas, mitos, provérbios e adivinhas passados de geração em geração - são recontados em vários livros como DUULA A MULHER CANIBAL, CONTOS AO REDOR DA FOGUEIRA e, também, em SUNDJATA, O PRÍNCIPE LEÃO.
Na coleção BICHOS DA ÁFRICA - detentora de vários prêmios e traduzida para o espanhol, inglês e alemão - destaco a importância dos contadores de histórias, donos de memória prodigiosa, verdadeiras enciclopédias vivas encarregados de perpetuarem a tradição e a proeza de seus povos.
Em meu país, onde a literatura infantil e juvenil é hoje um dos segmentos mais destacados do mercado editorial, um punhado de escritores têm abordado com propriedade as questões de diversidade e multiplicidade cultural em suas obras destinadas aos jovens leitores.
Termino, citando o parágrafo final da Carta de Princípios, da ASSOCIAÇÃO DE ESCRITORES E ILUSTRADORES DE LITERATURA INFANTIL E JUVENIL ( AEI-LIJ) que tenho a honra de presidir, na qual, nós, autores, afirmamos que: estamos comprometidos com a construção de uma sociedade fundada na ética, na fraternidade, na liberdade, na pluralidade e na justiça social.


BIBLIOGRAFIA

AEI-LIJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil - docedeletra.com.br/aeilij
BARBOSA, Rogério Andrade. Bichos da África. Editora Melhoramentos. IV Volumes. São Paulo. SP. 1987/88
Duula a mulher canibal. Editora DCL. São Paulo. SP. 2000
Contos ao Redor da Fogueira. Editora Agir. Rio de Janeiro. RJ. 1990
Lutando por Direitos. Editora Melhoramentos. São Paulo. SP. 1995
O Velho, a Carranca e o Rio. Editora Melhoramentos. São Paulo, 2000
Sangue de Índio. Editora Melhoramentos. São Paulo. SP. 1999
Sundjata, o Príncipe Leão. Editora Agir. Rio de Janeiro. RJ. 1995
Um Sopro de Esperança. Editora Saraiva. São Paulo. SP. 1999
Viva o Boi-Bumbá. Editora Agir. Rio de Janeiro. RJ. 1996
FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Editora José Olympio. Rio de Janeiro. RJ. 1980
HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. Editora José Olympio. Rio de Janeiro. RJ. 1986.
RIBEIRO, Darcy. O POVO BRASILEIRO. Companhia das Letras. São Paulo. SP. 1995
TRINDADE, Azoilda Loretto da (org.). Multiculturalismo mil e uma faces da Escola. Editora DP&A. Rio de Janeiro. RJ. 1999
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